31 maio, 2021

O Reencontro

 Nunca tinham se falado pessoalmente, mas se reconheciam há vários meses, por olhares e gestos.

As janelas, uma em frente à outra, separadas pela pequena praça sem árvores, davam ampla visão de seus espaços.

Conheciam todas as rotinas, horários e gostos um do outro.

Ela tomava café em uma vistosa caneca amarela, todas as manhãs, e lhe acenava desejando bom dia. Mais tarde, ele a via colocar o mesmo cachecol, e sair apressada para o trabalho.

Então ele se sentava em frente à escrivaninha, e escrevia durante horas. Pouco antes do fim da tarde vigiava o movimento pela praça: a velha senhora com o cachorro, a mãe com o carrinho de bebê, os estudantes que retornavam da escola. Sabia que ela não demoraria a chegar.

E quando já era noite, ele se sentava para admirar a inquieta vizinha.

Acompanhava divertido a aula de ginástica em frente à TV, o retornar do banho enxugando os cabelos, e o sorriso encantado - como gostava daquele sorriso - quando se via observada.

Ambos se serviam de taças de vinho tinto e desfrutavam da companhia um do outro, à distância. Ela mostrou o livro de cabeceira, e ele o maço de folhas escritas para seu próximo livro.

Ela queimou o assado, ele riu da fumaça que invadiu a sala.

Ele tropeçou no sofá, mas foi ela que soltou um grito de dor.

Durante muito tempo colecionaram cumplicidades assim, sem se atreverem a dar o primeiro passo em direção ao outro.

Mas o verão chegou, com um convite para que o casal se sentasse naquele banco da praça, de mãos dadas. Tinham muito o que conversar.

 

21 junho, 2020

O Bosque

Havia um grande bosque nas redondezas da cidade.

Dizia-se que tinha sido idealizado por um nobre italiano, que determinara a seus jardineiros que as árvores fossem plantadas de forma peculiar, para que ninguém conseguisse atravessar até o centro, onde construíra a casa para família, e se perdesse pelo caminho.
Muitos tentaram atravessá-lo, e nunca mais foram vistos.

Com o passar do tempo histórias de entes estranhos, como sombras andando sob as árvores, surgiram entre os moradores que, temerosos, desistiam de chegar à casa do nobre.

Mas o estranho bosque acabou atingindo o seu próprio criador. Seu único filho, sem se lembrar do perigo, um dia caminhou rumo às árvores e desapareceu.
Homens contratados, amarrados com enormes cordas, percorreram o bosque em todas as direções. Cada pedaço do terreno foi vasculhado à procura da criança. Nem mesmo o lago foi poupado: redes varreram as águas, sem encontrar qualquer vestígio. Durante noites seguidas chamaram pelo nome da criança, quebrando o silêncio e a quietude do lugar.
Por fim, depois de meses, esgotados e sem esperança, desistiram de procurar.

O nobre e sua esposa partiram. Viajaram pelo mundo, devastados pela tristeza.
No bosque, só os animais foram percebendo uma sutil diferença acontecendo ao longo dos anos: a cada desaparecimento, uma nova árvore surgia. A última foi um frondoso salgueiro, próximo à casa. Em tardes de ventania viam seus galhos se agitando, como se fossem braços de uma criança, tentando pegar os passarinhos.

18 outubro, 2017

A doadora de palavras

Ela era conhecida por sempre falar as palavras certas às pessoas.

Sabia quais serviam para um afago, um consolo, um pensamento reanimador onde havia inercia, ou um estimulo onde se instalara a desistência. Para aqueles que se perdiam em conflitos internos, escolhia palavras de fé e amparo.

Conta-se que ela tinha aprendido a ler e escrever sozinha, para grande surpresa da família.
Desde muito nova se encantara com as palavras, mesmo com aquelas que ainda não sabia o significado. Sempre que aprendia alguma, cantarolava baixinho, repetindo para si mesma, testando a sonoridade das letras, como se degustasse um doce. Depois, quando aprendeu a escrever, habituou-se a anotá-las em um pequeno caderno que levava sempre consigo, e mostrava a quem encontrasse.

Com o passar do tempo, à medida que crescia e ia aumentando seu repertório, passou a ver uma função especial nas palavras: a de trazer, no momento certo, as respostas ao espírito de cada pessoa. Sentiu que para isso ela precisava conhecer muitas, pois cada pessoa tinha sua própria história, e carregava medos, angústias ou alegrias.

Já adulta, era procurada por aqueles que precisavam escutar um alento, ou achar uma força que não se explicava de onde vinha. Nessas horas ela esquecia de si própria, de suas dores e dúvidas, e iluminava os corações aflitos com esperança de orações que aprendera e risos que só ela conhecia.
O mundo ficou silencioso quando ela se foi, e muitos, até hoje, se sentem desamparados por não encontrá-la quando precisam.
Toda pessoa precisa de palavras que lhe abram as cortinas e deixem entrar a luz, para trazer nova paz.

04 abril, 2016

O Amigo

Depois de vários dias de chuva, aquela manhã nasceu luminosa e fresca.
Pude então sair de meu abrigo entre as folhas.
Me estiquei naquela claridade e deixei que o sol secasse meu corpo úmido, até que o calor me estimulou ao movimento, e saí para um passeio solitário.
Ainda era cedo, poucas pessoas passavam apressadas, me ignorando por completo. Atravessei o pequeno parque, cheguei ao velho banco de madeira perto da fonte, e fiquei por ali, vendo a grama verde e crescida.
Eu conhecia bem aquela região. Tinha crescido ali, e era capaz de identificar os moradores e seus hábitos diários. Um pouco antes da metade do dia, um movimento anormal, de pessoas indo e vindo, me conduziu até a última casa da rua. Chegava uma nova família, com muitos móveis, caixas e malas.
Nos dias seguintes, assim que acordava, eu voltava à casa, e em uma das pedras do jardim, esperava para conhecer meus novos vizinhos. Mas as portas permaneciam fechadas, apenas umas poucas janelas eram abertas, deixando que o vento agitasse cortinas brancas, e sons de falas abafadas chegassem ao exterior.
Foi então que, em tarde de calor, fui atraído para uma janela aberta no andar superior da casa. Pensei em chegar até o parapeito, rendendo-me à curiosidade. Com cuidado fui subindo pelos galhos da árvore mais próxima, até ficar frente a frente com as vidraças e poder olhar para o interior daquele quarto.
Um garoto, sentado e apoiado na janela, olhava fixo para o gramado do jardim. Era um olhar triste, pensativo, enquanto os lábios permaneciam cerrados e mudos. Ele não me viu a princípio, por isso me agitei e assobiei com energia.  Percebi o movimento lento das suas sobrancelhas, até que nossos olhares se encontraram, e a enorme surpresa que teve, quando bati as asas e fui até ele.
Nos tornamos amigos, com encontros diários e divertidos. Assim que amanhecia, eu voava até a janela, e esperava sua chegada. Aos poucos fui entendendo que ele vinha trazido pela mãe, que o acomodava em frente à janela, colocava uma manta em suas pernas, e abria os vidros, para que ele pudesse se sentir melhor e observasse o jardim. Depois do nosso primeiro contato, ele sempre trazia algumas sementes para me presentear, e ficávamos ali, um ouvindo o outro, até o sol esconder-se, e eu voltar para meu ninho de folhas.
Certa vez o convidei para irmos até o banco de madeira. Tive de descer e subir várias vezes, para que ele me entendesse, e por fim convencesse a mãe a leva-lo até lá. Sentado naquele lugar, ele tocava o gramado com os pés, podia ver de perto as lindas flores sob as janelas, e sentir o doce aroma das maçãs, acima de sua cabeça.
Esse passeio começou por ser frequente, e por fim se tornou diário para nós dois.
Para animá-lo, eu me escondia em diferentes lugares do jardim, e cantava alto, até ouvir a sua gargalhada infantil, indicando que sabia onde eu estava.
Fui, aos poucos, o apresentando a outros amigos: esquilos, outros pássaros, grandes borboletas, barulhentos grilos e cigarras.
Atraídos pela alegria do filho, em algumas tardes os pais do meu jovem amigo se juntavam a nós, traziam livros e cadernos de pintura e se sentavam no chão. Nesses momentos, eu os deixava e voltava para casa, feliz pela grande harmonia que nascia naquele lar.
Alguns dias atrás, o pai trouxe de presente um pequeno cachorro. Um animalzinho feliz, irrequieto, que pulava e mordiscava as perninhas do garoto, ganhando o coração de todos.

Agora já não brincamos juntos como antes. Vou diariamente até o jardim daquela casa, escolho um dos galhos e fico lá por um tempo. Meu amigo já não precisa tanto de mim, mas seu sorriso nasce fácil no momento em que começo a cantar, chamando todos os outros animais para brincarem com ele...

Tesouro Infantil

Um dia, quando eu era ainda criança, encontrei uma caixa de madeira entre as flores de um canteiro. De imediato me encantei com aquele pequeno tesouro.
Me lembro que na tampa tinha o desenho de uma borboleta azul, já desbotado, e embora estivesse trancada, alguém tinha amarrado a chave na própria fechadura. Tudo isso me pareceu, naquele dia, um sinal de que o dono não se importaria que eu descobrisse o conteúdo, então a levei comigo.
Cheguei em casa com o coração aos saltos, apressada e ansiosa para me trancar no quarto e saborear a descoberta, longe dos olhos de qualquer pessoa que pudesse reivindicar o achado.
Dentro da caixa havia um par de óculos, de armação tão transparente quanto as lentes, muito leve e delicado. Ao coloca-los, tive uma surpresa: eles ficavam quase que invisíveis no meu rosto, e poderiam até passar despercebidos.
Durante o resto da tarde vaguei pela casa, esperando que alguém elogiasse meus lindos óculos transparentes. Ninguém parecia notá-los, mesmo quando eu sorria e piscava insistentemente.
Devo ter dormido com os óculos naquela noite, não me lembro, mas no café da manhã estava com eles sobre o nariz, feliz e confiante. Eu tinha desistido de mostrá-los à família, e como ninguém comentou, passei a acreditar que só eu os podia ver. E passei a usá-los o tempo todo.
Já no primeiro dia, descobri o efeito mágico daquelas lentes: eram capazes de me mostrar o que ninguém mais via – seres encantados, amigos de todas as crianças capazes de sonhar e viver fantasias não imaginadas pelos adultos.
A partir de então, meus dias tinham cor e magia.  Por onde andava, via seres fantásticos, que eu conhecia dos livros de histórias. No jardim conheci fadas agitadas, voando para cá e para lá, em suas tarefas com as flores. Neste sequer se importavam com os unicórnios, que pastavam a grama sem qualquer cerimônia. Ao ir para a escola, um dos gnomos sempre me acompanhava, e ia ditando palavras estranhas pelo caminho. Também conheci os minúsculos homenzinhos que moravam dentro da tomada de meu quarto, e se sentavam nos meus livros de colorir. Eram eles que escondiam os lápis e borrachas que nunca mais eram encontrados.
Tamyra era uma “elfa órfã”, que tinha se perdido dos outros enquanto atravessava a rua. Eu a escutei chorando, e a procurei durante uma manhã inteira, até acha-la encolhida em uma moita junto ao muro. Depois disso, nos tornamos grandes amigas, e ela dormia bem ao lado da minha cama.
Algumas vezes minha mãe entrava no quarto, ou interrompia nossas brincadeiras no quintal, e perguntava com quem eu conversava tanto. Minha mãe não tinha óculos como os meus, por isso não via nenhum dos meus amigos, por mais que eu explicasse para ela.
Vivi anos de encantamento. Todos os dias, logo ao acordar, colocava meus óculos e com eles ficava até o momento de deitar, para que pudesse ver todos aqueles seres lindos e amigos. Com eles aprendi todas as histórias e canções, e também as danças da primavera, que faziam brotar as flores que coloriam nosso jardim.
Mas à medida que ficava adulta, meus óculos mágicos iam ficando pequenos e apertados para mim. Até que eu já não conseguia usá-los, e por não ver os amigos especiais, as conversas e brincadeiras foram se acabando.
Com o tempo já não via as fadas, nem unicórnios ou os outros seres que eram meus melhores amigos.
Guardei os óculos na mesma caixinha de madeira, e a coloquei entre as fotografias de minha infância.
Em algumas manhãs, ainda escuto o bater de asas das fadas sob a minha janela, ou perco pequenos objetos no quarto, mas nunca mais vi meus amigos encantados.

Espero que ainda existam muitos outros, para que toda criança possa, mesmo que por apenas um tempo, ver o mundo com o colorido mágico, e ter amigos fantásticos, como eu tive.

04 fevereiro, 2016

Amigos - versão II - Rosinha

O nome era Rosa, ou Rosinha, como todas a chamavam. Tinha sido escolhido pelos pais, ambos professores na única escola da pequena cidade, antes mesmo do nascimento.
Menina franzina de pele muito clara, crescera entre livros e cadernos e, contavam os pais, aprendera a ler e escrever sozinha, sentada em um banquinho no canto da sala de aula da mãe.
Enquanto crescia, observou que nem todos os amigos se interessavam pelas histórias fantásticas que ela aprendia com o pai, ou pelos contos de fadas que ouvia da mãe antes de dormir. Se acostumou a brincar sozinha, recitando falas de personagens dos livros que lia em casa, ou se sentando no balanço à beira do rio, cantando canções que ela própria criava.
Na escola fez amizade com Zé Pedro e Bento, os únicos que não a mandavam “brincar com as outras meninas”, e ouviam com atenção as incríveis aventuras de Dom Quixote que ela contava. A caminho de casa, se divertiam com adivinhações e imitações que faziam das pessoas que conheciam.
Quando Bento contou que um dia seria um grande fazendeiro, ela o incentivou, descrevendo tudo que ele seria capaz de possuir: muitas terras, rebanhos e plantações. Mostrando maturidade, o aconselhou a economizar e trabalhar muito, para um dia ter tudo aquilo que queria. Da mesma forma, ouviu com atenção os planos de Zé Pedro, que pretendia ser médico, e teria que estudar bastante e viajar para cidade grande. De seus próprios sonhos, falava pouco.
No último ano da escola, uma tristeza a invadiu. Para continuar os seus estudos, teria que se mudar para a cidade grande, o que naquela época era inviável para sua família, e inaceitável para a maioria dos pais das moças de sua idade. Como não podia ir, teria que renunciar a tudo que queria conhecer e aprender. Então, e para fugir dessa realidade, passou a criar fantasias românticas, em que sua espera seria recompensada por um personagem salvador, com quem ela iria para bem longe.
Nessa mesma época os pais de Zé Pedro morreram, deixando a grande fazenda como herança. Logo após o velório, o amigo lhe confessara que chegara o momento de partir e a convidara a acompanha-lo. Surpresa e insegura, levara pouco tempo para consultar os pais e pedir a benção, prometendo que se casariam na primeira cidade, e, quem sabe, voltariam depois de algum tempo.
A partir de então, a vida de Rosinha se transformou. A cidade grande a envolveu, com suas ruas cheias de gente, lojas e carros. Sem preocupação, deixou que Zé Pedro conduzisse todas as ações:  permitiu que ele adiasse a procura de uma casa, e se hospedarem um bom hotel. Ele deixara os estudos para o ano seguinte. Tinham se divertido e comprado roupas, sapatos e muitos artigos com que sempre sonhara.
Também o casamento ficara adiado, ao contrário do que tinha prometido aos pais. Tudo que se referia à antiga vida, aos poucos fora ficando no passado. As ligações telefônicas aos amigos e mesmo aos pais foram se tornando raras até que, dois anos depois, soubera por acaso da morte de ambos.
Levaram uma vida de diversões por quase três anos, e então o dinheiro acabou. Zé Pedro mudava frequentemente de emprego, procurando assegurar a condição de vida de ambos.
Ela, que nunca trabalhara, e estava despreparada, passava os dias no pequeno apartamento que tinham alugado depois de abandonarem o hotel, relendo antigos livros e assistindo filmes na televisão. Em meio à crise, percebeu que estava grávida.
Depois de uma gravidez com problemas, o filho nasceu em uma noite quente, de um parto difícil e  doloroso. Rosinha o chamou de “Antonio”, mesmo nome de seu pai.
Nos anos seguintes, ela se dedicou integralmente ao filho. E quando ele já tinha idade para entender, ela lhe falava da própria infância no campo, das brincadeiras, no rio e dos amigos. Algumas vezes, Zé Pedro a escutava calado, sentado no canto da sala, com o olhar perdido em suas próprias lembranças.
Nas poucas horas que tinha para si mesma, visitava um pequeno parque próximo, onde se sentava à sombra das árvores, com um dos antigos livros do pai. Refletia sobre o rumo que tinha dado à sua própria vida, e o fim dos seus sonhos juvenis. Ela e Zé Pedro pouco falavam sobre Bento, mas ela sabia que ambos sentiam saudades.
Quando Antonio completou 5 anos, Zé Pedro propôs que voltassem à cidade natal. Naquele dia ela concordou com um aceno da cabeça, olhos fixos no companheiro e o coração angustiado. Sabiam que seria mais do que um regresso. Podiam ver nos olhos um do outro os arrependimentos, e que agora enterravam sonhos.
Um mês depois, juntaram o pouco que tinham e partiram. Ao avistarem as primeiras casas da cidade, deram-se as mãos comovidos. Rosinha já se sentia madura e consciente que naquele lugar iria criar seu filho, onde continuava sendo a sua terra. José Pedro, por sua vez, aprendera muito com os erros, e dentro de si sentia enorme vontade de recomeçar.
Ao chegar, não procuraram Bento. Sabiam onde encontra-lo, mas preferiam se acomodar primeiro, antes de visita-lo e apresentar o filho. Rosinha lamentava agora não ter se despedido do amigo de infância, e tinha receio que a antiga amizade já não existisse.
Ela sabia que Zé Pedro costumava andar pela antiga fazenda, e pelos lugares que conhecia tão bem, mas quando, certa tarde, lhe avisaram que algo tinha acontecido a Bento, ela teve certeza de que os dois estavam juntos. Sabia que o marido se preocuparia com o amigo, e faria qualquer coisa para ajudá-lo.
Nos dias seguintes, assim que acordava e vestia Antonio, caminhavam até a casa da fazenda de Bento onde Zé Pedro tinha passado  a dormir, esperando que o amigo se restabelecesse. Durante todo o dia se empenhava nos afazeres da casa, no preparo das refeições e nos cuidados das roupas do enfermo. O marido cuidava dos trabalhos na fazenda, e todos os dias parecia mais animado com os resultados.
Quando Bento passou a caminhar, e se sentar com Zé Pedro na varanda, nos finais de tarde, ela chegava e se juntava a eles. Não falavam muito do período em que tinham estado distantes, mas  das lembranças da infância, e de aventuras compartilhadas. Aos poucos estabeleceu-se uma rotina na vida dos três, e quando Bento ofereceu um emprego a Zé Pedro este aceitou de imediato.
Foi Bento também que a apresentou aos donos da quitanda na cidade, recomendando que comprassem os doces bolos feitos por ela. Com o emprego e novas amizades, Rosinha voltou  a sorrir e a tecer planos, sentia-se querida e importante. Sempre que conseguia juntar umas economias, encomendava alguns livros ao comerciante que sempre ia à cidade. Ler continuava sendo seu maior prazer, e agora também fonte de muitas informações na sua nova vida.

No último domingo, preparou uma grande cesta com guloseimas para o piquenique à sombra da mangueira, e quando Bento se sentou ao seu lado, com Antonio no colo, fez o convite para que o amigo batizasse o filho. Percebeu que ele segurava lágrimas, embora abrisse um largo sorriso, mas não perguntou a razão... o importante era o valor daquela amizade, que tinha resistido ao tempo e desventuras da vida.

(versão visão de um dos personagens do conto Amigos)

Amigos

Era um dia quente, e o sol forte tornava ainda mais cansativa a tarefa de Bento. Dirigindo o trator, em lento vai e vem, ele sentia o suor lhe banhar o rosto, enquanto arava o solo fértil e promissor da sua fazenda, à margem do rio.
Trabalhava sozinho, concentrado, sem se importar com mais aquele domingo sem descanso. Não queria atrasar-se, para que a terra já estivesse pronta quando a primeira chuva caísse, então ele poderia se sentar na cadeira da varanda e assistir, tranquilamente, o brotar da plantação, resultado do seu esforço. 
Tinham sido anos de muita dedicação, desde que usara todas as usas economias para comprar aquela fazenda. José Pedro, seu amigo, a tinha recebido de herança dos pais, e logo no mesmo mês se propusera vende-la, em troca da liberdade de partir para cidade grande, e deixar a pequena cidade do interior. 
Depois do negócio feito, ele correra pela estrada de terra até a fazenda vizinha, ansioso para contar à companheira de infância, mas ela também partira e ele ficara ali, mudo de tristeza e com o coração partido.
A grande decepção o tornara mais resistente e forte, com o coração fechado para qualquer sentimento que não fosse a vontade de trabalhar a terra, e faze-la produzir cada vez mais. Evitava outras companhias, e só procurava os vizinhos quando necessitava de alguma ajuda nas mais tarefas difíceis da fazenda. Aos poucos, esses contatos também deixaram de acontecer, já que os nomes dos antigos amigos eram sempre mencionados nas conversas pela cidade, e então ele logo se afastava.
A amizade entre os três tinha começado na infância, nas brincadeiras nos pomares, nas aventuras pelas ruas da pequena cidade, nas salas de aula que compartilharam, e nas longas conversas, à margem do riacho da região.  
Nas fantasias infantis, cada um era seu próprio herói: José Pedro seria um doutor muito rico, que teria um carro grande e brilhante, e viajaria de avião pelo mundo, para ajudar as pessoas de todos os lugares. 
Bento planejava ter a maior fazenda da região, com plantações a perder de vista e uma casa muito bonita, onde viveria com a moreninha mais linda do mundo: Rosinha. 
Já ela, sem saber dos planos do amigo, sentada no balanço e trançando os cabelos com ar sonhador, imaginava os lindos vestidos que iria vestir, no palácio em que viveria com seu grande amor, que a levaria para a cidade grande, em algum dia de verão, no futuro. 
Eram lembranças que acompanhavam Bento havia muitos anos, e tinham feito dele um homem calado, mas sensível e solidário.
Depois de algumas horas, desligou a máquina e caminhou na direção do rio, na intenção de se lavar na água límpida e fria. Junto da cerca parou surpreso: perto dali, aproveitando a sombra da mangueira junto ao riacho, Zé Pedro pescava tranquilo. 
Bento não se aproximou. De longe observou as roupas de bom corte, os sapatos mais finos e a expressão de prazer daquele amigo que nunca mais mandara notícias, mas que agora continuava parecendo inteiramente à vontade naquele lugar que frequentavam quando eram meninos. 
Olhou para suas próprias mãos empoeiradas e calejadas, as botinas gastas e sujas, e se escondeu. “Ele agora é um rico da cidade, não precisa trabalhar como eu e pode se divertir o dia todo”, pensou. 
Tímido como sempre, retornou ao trator, antes que o outro o visse e percebesse que mesmo sendo o dono da terra, ele nunca tinha sido feliz. O trabalho não lhe trouxera o que mais desejara em todos aqueles anos. 
Ao subir no trator, estava profundamente emocionado. Uma dor atingiu-o no peito, e percebeu que caía sobre a terra que tanto amava. Perdeu a consciência sabendo que não tinha medo de morrer ali. 
Zé Pedro, no entanto, sem ver o amigo, sentia uma alegria genuína, pescando como fazia na infância. Nos últimos meses vivia em constante tensão, à procura de trabalho, para que pudesse manter a família. Tinha passado por outras cidades, mas acabara propondo à Rosinha que voltassem ao lugar onde tinham crescido, e tentassem retomar suas vidas. 
Durante todo aquele dia havia percorrido a fazenda que fora sua, mas sem coragem de procurar o velho amigo. Como iria contar a ele dos gastos impulsivos, que tinham acabado com tudo que ele levara? Deslumbrado com a cidade grande, tinha deixado de lado os estudos e o sonho da medicina, vivendo de empregos temporários, ganhando pouco e com muitos gastos, até que todo dinheiro acabara.
E como falaria de Rosinha, que fora o amor secreto de ambos? Ainda se lembrava do dia em que lhe mostrara o dinheiro recebido pela venda da fazenda, e lhe fizera o convite de leva-la junto com ele para longe. Intencionalmente, não lhe dera tempo para pensar melhor, desenhando o sonho de uma vida nova e confortável para ambos. Quando ela mencionou o nome de Bento, ele disse que já tinha se despedido   e não o veriam de novo.
Ela acreditara e tinham sido felizes por um tempo. Mas depois de tantas dificuldades, aceitara voltar. Tinha a esperança de um recomeço ainda incerto, e quem sabe um lugar para morar, mas perdera o sorriso junto com os sonhos. Passava os dias cuidando do filho pequeno, Antonio, e a possibilidade de cria-lo onde ela mesma fora criada, mesmo sem luxos, já não lhe soava tão ruim.
Com esses pensamentos, Zé Pedro ficou por ali mais algum tempo, até que a proximidade do fim do dia o alertou para voltar. Ao se levantar, porém, uma cena lhe chamou à atenção: o trator, ainda ligado, continuava parado no meio do terreno. “Algo está errado”, pensou. Sem saber explicar porque, correu até lá, sentindo o coração acelerado e preocupado.
Encontrou Bento desmaiado, muito pálido naquele chão revolvido e seco. De imediato trouxe uma água fresca, que ofereceu ao amigo, chamando-o insistentemente sem conseguir reanimá-lo.
Sem perder tempo, levantou o amigo nos ombros e com dificuldade o levou até a casa, pedindo a um vizinho que passava para que trouxesse o médico da cidade.
Nos dias que se seguiram, enquanto Bento se recuperava, Zé Pedro trabalhou a terra sem descanso. E quando por fim as chuvas chegaram, ajudou o amigo a chegar até a varanda, e juntos contemplaram o serviço pronto.
O reencontro trouxe uma vida nova aos três amigos. Depois de um abraço contido, abriram o coração para a antiga amizade.
Zé Pedro aceitou com humildade o emprego que Bento lhe ofereceu, e ambos passavam os dias nos trabalhos da fazenda. Juntos também reformaram uma pequena casa na cidade, para que o casal morasse até poder comprar uma outra.
Rosinha fazia e vendia doces para a quitanda, e aos poucos refez amizades pela cidade. Nunca soube dos sentimentos do Bento no passado, e sentia enorme gratidão pela ajuda do amigo. Trocara os sonhos adolescentes pela vida de esposa e mãe, e se divertia contando ao filho as aventuras dos três amigos na infância.
Aos domingos, ela preparava uma cesta com bolos e frutas, e junto com Zé Pedro e o filho se encontravam com Bento sob a velha mangueira à beira do rio. Lá colocavam uma manta sobre o capim e faziam um piquenique que durava a tarde toda. Enquanto os homens pescavam, Rosinha colocava o pequeno Antonio no antigo balanço e o ensinava a brincar. 
Foi em uma dessas tardes, que anunciaram a Bento que seria o padrinho do garoto, selando uma amizade que tinha sido capaz de resistir ao tempo e às desventuras da vida...

25 outubro, 2015

Neste Natal


Naquele dia, nem mesmo a decoração festiva, ou todos os preparativos para ceia de Natal com a família, conseguiram tirar a incômoda melancolia que ela sentia.
Tinha sido um ano difícil, com as perdas do pai e o marido, os problemas de saúde de um irmão, e as dificuldades financeiras pelas quais passavam. Mesmo assim, insistira na presença da família, convidando pessoalmente cada um, e recomendando que não se atrasassem.
Durante a tarde conferiu mais uma vez a grande árvore de Natal montada na sala. Era a mesma, desde que os filhos tinham nascido, e restavam poucos enfeites, depois de tantos anos.
Quando eram crianças, sentiam enorme prazer em colocar cada ornamento, e tentavam adivinhar o conteúdo dos presentes que dia a dia eram colocados sob a árvore. Agora já eram adultos, chegavam e, enquanto esperavam o jantar, se distraíam com a televisão ou se sentavam por perto dela durante alguns minutos, mas logo se afastavam desinteressados. No Natal anterior, os netos adolescentes, tão envolvidos com seus aparelhos eletrônicos, passaram boa parte da noite silenciosos e entediados.
"Espero que estejam animados hoje", pensou.
Depois de tudo preparado e arrumado, avaliou a pequena sala, conferindo o resultado.
Foi quando seus olhos pousaram na antiga caixa de madeira, na última prateleira da estante de livros. Não se lembrava de quando a tinha colocado naquele lugar, mas sabia que alguns anos tinham se passado, desde que olhara o conteúdo pela última vez.
Com cuidado, pegou o objeto e se sentou na sua poltrona predileta. Antes de abrir, passou os dedos pela pintura desbotada da tampa e a fechadura enferrujada.
Enquanto revia suas relíquias pessoais ali guardadas, deixou-se invadir pela emoção e saudade.
Em meio a antigas fotografias, pequenos brinquedos, lembranças de escola, desenhos dos filhos e cartões, encontrou o maço de cartas infantis endereçadas a Papai Noel, escritas em diferentes anos, e guardadas secretamente por ela. Foi relendo uma a uma, buscando na memória os momentos em que os filhos acordavam falantes, ansiosos para ver se os pedidos tinham sido atendidos, soltando gritinhos de alegria diante dos pacotes.
Mas foi um cartão, feito em conjunto pelos filhos, que provocou lágrimas e uma reflexão sobre o encontro daquela noite. Depois de algum tempo, consultou o relógio, deixou a caixa no sofá, e se preparou para a chegada da família.

Chegaram trazendo alguns presentes e, antes que ela fizesse qualquer comentário, perceberam seus pequenos arranjos.
Na antiga árvore, encontraram alguns dos brinquedos de criança, usados como novos enfeites. Sobre a mesinha de centro, as delicadas cartinhas, de forma que pudessem reconhece-las e manuseá-las. Os lindos desenhos, com figuras de Papai Noel e bolas coloridas, enfeitavam a parede.
Bastou um olhar, trocado entre mãe e filhos, para que a mensagem de carinho familiar e todo o amor que sentiam fosse, de repente, latente entre eles. Juntos releram tudo, contando aos filhos os sonhos de criança, cheios da magia do Natal em velhos tempos. 
Ela percebeu, feliz, a diversão dos netos ao escutarem os pais descrevendo as primeiras tentativas de pedalar na bicicleta tão sonhada, ou a grande emoção ao ganhar uma boneca que dizia "mamá", algo que superava qualquer fantasia infantil, naquela época. Comentaram as artimanhas do avô, naquele Natal em que se vestira de Noel, e entrara pela janela carregando um saco de presentes para surpreender os filhos. Com ingenuidade infantil, falaram daquela visita por meses, acreditando que o velhinho visitava todas as crianças do mundo.

Ao se sentarem todos à mesa, ela pediu ao neto mais velho para ler aquele cartão que separara. Embora tímido, o jovem não resistiu ao pedido, e de boa vontade leu as palavras que revelavam uma oração, escrita pelo pai e a tia, quando eram pequenos:

Querido Menino Jesus,
Proteja a nossa família,
para que todos os anos possamos estar juntos,
unidos pelo Amor e Paz.
E que sempre nos lembremos
desta linda noite de Natal!

Depois de um breve silêncio, sorrisos foram se abrindo e um sentimento de grande afeição contagiou  a todos.
"O Espírito do Natal" voltou, pensou ela.
Todos sabiam que aquele seria um Natal inesquecível...




18 julho, 2015

O Dono do Bosque

Bem ao norte, longe da cidade, existia um bosque. Com árvores frondosas e relva verde, sua beleza exuberante se destacava naquela paisagem, já marcada pelo homem e seus danos à natureza.
Em seu interior havia uma única casa, habitada por aquele a quem chamavam "Dono do Bosque".
Pouco se sabia sobre aquele solitário morador. Contavam que nascera ali mesmo, na casa de madeira construída pelos pais. Meses antes do nascimento, seu pai escolhera uma das árvores, a derrubara, e fizera, com as próprias mãos, um pequeno berço. Depois de pronto, o trouxera para dentro de casa para que a esposa o preparasse para o filho que esperavam. "O berço é o primeiro acolhimento após o ventre da mãe", dissera ele, orgulhoso pelo trabalho.
O menino cresceu sem outros amigos, e sem sair dos limites das grandes árvores.
Na adolescência perdeu a única família que tinha conhecido: primeiro o pai, atingido pela queda de uma das árvores durante uma ventania, e, poucos meses depois, a mãe adoeceu gravemente e também veio a falecer.
Ambos foram enterrados por ele, no pequeno jardim que a mãe havia amorosamente plantado e cuidado a vida inteira.
Desde então, vivia com recursos do próprio bosque e, mesmo sozinho, desenvolveu habilidades e conhecimentos. Acompanhava a troca das estações pelas mudanças das folhas ou pelo vento que soprava, e percebia o ciclo da vida pelos próprios animais que observava: filhotes que cresciam, fêmeas que reproduziam, magníficos pássaros que fugiam sem que ele pudesse evitar.
Nunca buscou outras companhias, e na segurança do seu lugar conversava com os pássaros e outros animais. Diziam que costumava abraçar as árvores, ficando unido ao troco por longos minutos, em conversas e preces que só ele compreendia.
Conhecia cada trilha, cada clareira, e percorrera toda a extensão do riacho, com os pés descalços na água fria e límpida.
Guardava na memória todas as tempestades e ameaças que o bosque sofrera, como aquele grande incêndio alguns anos antes, apagado com a chegada milagrosa de uma chuva que durou três dias.
No entanto, diferente das belas árvores, que renovavam as folhas a cada estação, a natureza não poupou o dono do bosque das agruras de envelhecer.
A cada inverno ele foi se sentindo mais fraco e doente, e já não percorria as trilhas entre as árvores. Também não conseguia se deitar, como antes, sobre as folhas no chão, nos dias de Outono. E quando chegava a primavera, já não tinha forças para chegar ao outro lado do bosque, para ver os ninhos dos pássaros ou as flores daquele ano.
Acostumou-se então a ficar à sombra de um grande carvalho, bem próximo ao riacho, de onde podia observar a entrada do bosque. Não que esperasse alguma visita, mas por sentir necessidade de estar entre todas aquelas árvores.
Tinha arrastado uma velha cadeira de braços largos, e nela se sentava por horas, com os pés tocando a terra fria. Ao seu lado, sobre uma pedra, deixava sempre o livro predileto, já gasto de tantas releituras.
Foi então, muito tempo depois, que em um dos mais quentes verões de que se teve notícia, que algumas pessoas resolveram se aventurar pelo bosque, à procura de um lugar mais agradável que as ruas quentes da cidade.
Se espalharam pelas trilhas, falando alto e espantando pássaros e pequenos animais. 
Atravessaram o riacho e viram uma pequena casa, já gasta pelo tempo, e com aparência de abandono.
Curiosos, caminharam até um par de árvores que se destacavam das outras. Um grande e velho carvalho, que sombreava a maior parte do terreno, e ao seu lado, uma outra um pouco menor, de madeira clara e galhos curtos, cobertos de folhas e pequenas flores.
A composição, do tronco e galhos, provocava uma estranha imagem, que surpreendeu a todos. Observando melhor, compararam o que viam a figura de um homem sentado, que aproveitava a sombra do carvalho para uma leitura ao fim da tarde.

O que eles nunca souberam, foi que o dono do bosque se tornara definitivamente parte dele. Os pés tinham criado raízes profundas e fortalecido o corpo, que se tornou cerne, e aqueles braços que antes abraçavam árvores agora eram galhos com folhas e flores, que abrigavam os novos ninhos de outros pequenos passarinhos que em breve povoariam o bosque.


23 junho, 2015

Colorindo o Mundo

Um dia, o mundo amanheceu todo cinza e triste. As árvores, as casas, as ruas e os  carros, todos ficaram da cor cinza. Parecia que o sr. Vento tinha soprado pó de cimento sobre todas as coisas.
Quando a menina acordou, olhou pela janela e ficou assustada por ver o mundo tão feio.
Então perguntou para o sol o que devia fazer, mas o sol era apenas uma luzinha amarela, muito fraquinha no céu cinzento, e respondeu­lhe com uma voz baixinha, vinda lá de cima dizendo:" Ah, menina, você tem pintar o mundo de novo!".
Ela apressou­se para lavar os dentinhos, o rosto e, ainda antes de comer e ir para a escola, quis deixar o mundo bonito outra vez.
Buscou dentro da gaveta da sua mesa do quarto a caixa de lápis de cor, foi à janela para ver bem como era o mundo, voltou para a mesa e desenhou tudo numa folha de papel. Depois começou a colorir o mundo.
Fez a casa da frente azul outra vez, e a sua boneca voltou a ter cabelos vermelhos como tinha antes do mundo mudar de cor. Também pintou bem branquinho, como um floco de neve, um cachorrinho vira­lata que sempre passava muito sujo, para parecer que tinha tomado banho. Assim, talvez mamãe a deixasse trazê­lo para o quintal e brincar com ele.
Depois foi pintando as árvores, os carros de todas as cores, as flores dos jardins, uma de cada cor, o céu de azul muito bonito, e o sol de amarelo muito forte e brilhante, como era antes.
E tudo o que a menina desenhava no papel, ia mudando lá fora na rua, deixando de ser cinza e ficando colorido como no desenho. Mas logo a menina ficou muito cansada, porque o mundo era muito grande e tinha muitas coisas para pintar. Ela tinha de ir para a escola, já estava atrasada e não podia pintar mais.
E ela chorou, chorou, até aparecer uma borboleta mágica, que voava para cá e para lá, e que tinha todas as cores do mundo reunidas nas suas asas.
"Voa comigo, que eu te ajudo a pintar!", disse a borboletinha.
"Mas eu não posso voar", lamentou­se a menina.
Foi então que a borboleta teve uma idéia: bateu as asas rapidinho, para chamar todos os animais do jardim. Logo chegaram o esquilo serelepe, a abelha zum­zum, os passarinhos piu­piu e as lagartixas corre­corre. O último a chegar foi o cágado molenga, muito dorminhoco, que de vez em quando parava, encolhia as patinhas para dentro da carapaça, escondia a cabeça e tirava um cochilo.
Foi uma confusão na janela, porque todos queriam entrar no quarto, e falavam todos ao mesmo tempo. A menina, coitadinha, não sabia o que fazer.
Como ninguém escutava, ela subiu em cima do banco de pedra e começou a gritar: "atenção, atenção", e quando todos fizeram silêncio, a dona Coruja sabe­tudo, que era a mais sábia, lá do alto da árvore, explicou como fariam para ajudar a menina a pintar o mundo. Distribuiu tarefas a todos e explicou que, se todos fizessem a sua parte, o mundo ficaria bonito outra vez.
"Você, abelha, chama todas as suas irmãs para irem pintar todas as flores, porque vocês já voam sempre, de flor em flor, vai ser muito fácil, não é ? E vocês conhecem todas as cidades e são muito rápidas. Para você lagartixa, vou pedir que pinte os muros, as paredes das casas e as ruas."
O esquilo logo se adiantou: " e eu? e eu?" . "Você, meu amiguinho, vai pintar os troncos das árvores e todos os lugares onde conseguir entrar, porque você é muito esperto!".
Sem nem precisar mandar, os passarinhos já foram pegando os lápis com os biquinhos e bateram as asinhas voando para colorir as folhas das árvores e as nuvens, lá no alto, onde só mesmo os passarinhos chegam.
A menina correu para a escola, aflita porque já estava atrasada e nesse dia havia coisas muito bonitas para aprender.
Mas os animaizinhos continuaram a colorir o mundo.
E assim foi o dia inteiro. Pintaram, pintaram, até tudo ficar colorido de novo.
E quando o sol já estava se recolhendo, amarelinho que era uma beleza de ver, a menina chegou da escola e deitou­se no gramado verdinho, feliz por tudo estar tão bonito. Olhava o céu, as nuvens branquinhas, as flores em redor, quando uma vozinha baixinha e arrastada a chamou:
“Ei cuidado comigo!”
A menina levou um susto e procurou no meio da grama quem estava gritando. Era a joaninha pequenina, tão vermelhinha de bolinhas pretinhas, debaixo da folhinha de grama.
“Você? Desculpa, não estava te vendo, amiguinha. Suba aqui no meu braço para eu ver como são lindas as suas cores.”
A joaninha veio depressa e subiu, e fez questão de contar: “quem me pintou foi cágado molenga, com um pincel bem pequeninho”
“você ficou bonita!”
Aos poucos os animais foram chegando e sentando perto da menina e da joaninha, para descansar.
O mundo já estava todo colorido de novo.
O jardim ficou cheio de flores, com som de abelhas e passarinhos, e os esquilos pulando por todo lado.

Só quem ainda trabalhava era a borboletinha. Pousada numa caixa de lápis, ela sacudia as asinhas e coloria cada um deles, para que depois pudessem pintar todos os desenhos que as crianças fazem.

(conto infantil que inicia uma série de histórias para crianças)
(foto Poetas Trabajando)


18 abril, 2015

A Senhorinha e as Colchas de Retalhos

Todos na cidade conheceram a história daquela senhorinha.
Contava-se que nascera em família abastada mas depois de recusar um casamento arranjado entre famílias, tinha preferido viver de forma mais simples, na pequena casa próxima ao rio.

Depois disso, fora professora por muitos anos, e pelas suas mãos de mestra tinha passado a da maioria das crianças da pequena cidade, e com isso acabara se tornando uma espécie de "conselheira", que recebia a todos sempre com um sorriso amável e acolhedor.

Quem passava pela estreita rua de pedras, fosse em dias de chuva ou de sol, podia vê-la sentada na velha cadeira de balanço da varanda, costurando colchas de retalhos com grande habilidade.

Algumas vezes um antigo aluno, já um adulto, vinha cumprimenta-la. Chegava e sentava-se perto dela, no degrau de entrada, e começava a falar da própria vida. Ela ia assentindo com a cabeça, murmurando para que ele "seguisse o coração" ou, dependendo do assunto, que "deixasse nas mãos de Deus".

Muitas moças vinham pedir conselhos para corações partidos e desilusões de amor. Ela ouvia quieta, olhos baixos na costura no colo, até que tudo fosse revelado e as lágrimas esgotadas. Então se levantava, buscava xícaras de chá bem doce, e iniciava uma conversa sobre o poder de cuidarmos de nossas próprias feridas, até se tornarem pequenas cicatrizes e serem esquecidas.

Outras vezes, mães traziam seus filhos pequenos e os colocavam em seu colo. Pediam uma "benção" de saúde, ou contavam proezas que a faziam rir espantada, e os abraçar como se fossem netos queridos, ou filhos que nunca tivera.

Embora muito querida, poucos visitantes chegaram a observar melhor os delicados trabalhos de costura feitos por ela. Por isso não viam a exatidão com que ela cortava cada retalho, depois de uma escolha entre os tecidos separados e guardados segundo uma lógica só dela, e que ia muito além da mera seleção de cores e padrões.

Assim, nunca souberam que cada colcha de retalhos contava uma parte de sua história, e que aquela tinha sido a forma que escolhera para retratar seu passado, e as emoções vividas ao longo dos anos. Ela guardava suas memórias costuradas e bem dobradas, transformadas em uma forma especial de livros, que só ela interpretava.

Em uma das primeiras, feita quando ainda era menina, via-se uma mistura de tecidos alegres: pequenos animaizinhos, flores e frutas nas estampas que escolhera junto com mãe, enquanto aprendia a costurar. Dessa época tinha outras em diferentes tamanhos, todas retratando algo de particular através dos desenhos e cores.

Em uma outra, tons cinzas e desenhos apagados registraram o ano em que perdeu os pais, e a lembravam dos longos meses em vigília ao lado de camas de hospital, em que só a costura lhe deu esperanças.

Uma das prediletas, guardada com carinho em um armário, fora feita com retalhos de tecidos presenteados pelas crianças da escola, e que era uma mistura de desenhos de flores, de todas as cores e formatos.

Junto dela, uma outra inacabada, pois a alegria com que começara, vista na escolha por estampas com corações e rosas, se desfizera com a partida de grande amor.

Ela nunca tinha pensado em se desfazer das colchas, e sempre que terminava uma, a dobrava e guardava com carinho, como a um livro escrito com muito esforço e sentimento, e que ninguém chegaria a ler.

Essa doce senhora ainda vive, e embora mais lentamente, continua a costurar seus retalhos e dar os seus conselhos.
Velha aluna, ainda ontem a visitei e pedi que me abençoasse. Senti nas suas mãos trêmulas uma fé inabalável, e as beijei em sincero agradecimento ao me despedir.

Quando saía, toquei a colcha quase terminada em seu colo, e observei que era de retalhos com desenhos de nuvens brancas, em um céu azul límpido e claro.


(foto Poetas Trabajando)


10 março, 2015

Infância

Ela era ainda muito nova, quando seus pais perceberam seu temperamento audacioso e a mente inquieta.
Única menina entre quatro irmãos, surpreendia a todos quando abandonava as delicadas bonecas, presentes caros que recebera, e corria pelo quintal em barulhentas brincadeiras com os irmãos. Sem sentir medo, subia até os últimos galhos das mangueiras, e trazia consigo doces frutos para ofertar à mãe.
Outras vezes saía a perseguir calangos, para transformá­los em seres mágicos, com quem conversava por horas, antes de soltá­los no jardim.
Algumas vezes voltava para casa com cicatrizes dolorosas: sinais de quedas ou aventuras pela vizinhança. Nessas ocasiões, ouvia de cabeça baixa as infindáveis recriminações dos pais, e aceitava sem rancor o castigo imposto: dias sem sair de casa, em que ficava à janela olhando o jardim.
Mas depois de algum tempo, durante uma tarde com o pai, bastava que o envolvesse pelo pescoço e prometesse se comportar, para que ele cedesse às suas vontades, e de novo a libertasse para o sol do quintal, e inúmeras brincadeiras que aquele ambiente proporcionava.
Até que um dia, a idade de estudar chegou, e os pais decidiram que a menina de cabelos desalinhados, joelhos marcados e sujos, iria, como todas as meninas na época, para o colégio interno. Nem mesmos as lágrimas derramadas, e o pavor estampado nos doces olhos da criança, foram capazes de comover a família.
Quando partiu, deixou para trás todos os sonhos e fantasias infantis, e enfrentou com um mínimo de coragem a nova vida que lhe foi apresentada.
Trocou o quintal pelas salas de estudo, e as brincadeiras pelas orações e tarefas da escola. Aos poucos deixou de lembrar do pomar, dos pequenos animais e as corridas com os amigos. Se esqueceu das flores que colhia e prendia nos cabelos, e da fonte do jardim, onde se sentava e mergulhava os pés na água fria.
E quando, por fim, voltou, já mulher feita, andou pela casa à procura de lembranças. Visitou os quartos, abriu janelas e gavetas à procura de antigos objetos.

Ao fim do dia se sentou perto da janela, e abrindo um pequeno caderno que trouxera consigo, começou a escrever. 

Contou a história da menina que amava a liberdade e o sol no rosto, e vivia em um quintal encantado, de onde não precisava sair nunca, e onde estavam todas as alegrias que uma criança devia viver.


14 fevereiro, 2015

O Presente


Depois dos filhos criados e casados, e vendo a velhice chegar, Tio Zé e Tia Fia passavam os dias entre os trabalhos na pequena fazenda, e as poucas visitas aos vizinhos.
Há tempos a filha mais velha tinha se mudado com o marido para o nordeste, e  o  filho caçula, temporão que Deus mandou, trabalhava na cidade grande, e vinha uma vez por mês. Nesses dias, trazia sempre um agrado, alguma novidade da cidade para facilitar a vida da mãe, ou algo que alegrasse a solitária vida dos pais.
Quando soube que a energia elétrica rural enfim tinha chegado por lá, gastou todo o seu salário no melhor de todos os presentes: uma televisão novinha, que depositou orgulhosamente na mesa da pequena sala da casa. O mais difícil foi instalar a antena no telhado, com subidas e descidas sem fim, até acertar a imagem. Quando terminou, abraçou os pais e partiu apressado, a tempo de pegar a condução de volta para a cidade.
Nos dias que se seguiram, os vizinhos pouco viram o velho casal. As visitas noturnas já não aconteciam, e na quermesse da igreja daquele mês ninguém provou os deliciosos biscoitos da Tia Fia, na barraca das quitandas.
 Essas mudanças seriam de preocupar, mas o filho do Senhor Onofre, Zequinha, garoto esperto e falante, tinha tranquilizado a todos, ao contar que via os tios sempre, ao voltar da escola. “É verdade, gente, eu vejo eles sentados lá na frente da casa, e não estão doentes não”, explicou.
Mas com o passar do tempo, um fato estranho lhe chamou a atenção: notou que os dois velhos se sentavam de frente para a porta da casa, e costas para a estrada, e por isso nem viam quando ele passava. Preocupado, um dia tentou chamá-los do portão, mas não foi ouvido pelo casal, distraído com algo que acontecia na sala.
Até que em determinado dia resolveu abrir o portão da fazenda do Tio Zé e, sem ser convidado, ir ter com eles, para um pouco de prosa.
Estavam sentados a uma grande distância da porta da casa, no jardim, e assistiam curiosos um programa qualquer que passava na televisão, ligada no fundo da sala. Tia Fia se esforçava muito para enxergar a imagem, “talvez por causa da distância”, pensou o garoto.
“Bênção meus tios! Por que é que estão assistindo a televisão assim, de tão longe?”
“Deus o abençõe, meu filho!”
E puxando o braço do sobrinho, Tio Zé apontou o aparelho  na sala e explicou: “nosso filho deu essa máquina, e falou onde apertava para ligar e desligar...”
“Tá certo, tio”
“E  foi um  presente danado de bom esse!”
“Foi mesmo, senhor”
Fez uma pausa, para depois continuar em voz baixa:
“Mas a máquina fala muito alto, meu sobrinho, então eu e a Fia temos que sentar aqui fora, longe desses gritos...”
Zequinha então compreendeu tudo. Os tios não tinham idéia de como controlar o volume do aparelho, mas, encantados com a novidade, não queriam deixar de assistir um dia que fosse. De imediato, entrou na sala e mostrou o que fazer aos tios, contendo o riso para não envergonhá-los. Aproveitou também para mostrar outras utilidades dos controles, tendo paciência para repetir todas as vezes que o tio pedia. Na cozinha, Tia Fia preparou um cafezinho novo, e o biscoito frito que o sobrinho tanto gostava.
Depois disso, já acostumados com o presente do filho, as noites na fazenda se tornaram mais alegres. E a cada vez que o filho retornava, Tia Fia tinha uma infinidade de assuntos para comentar: coisas que tinha visto nas propagandas e programas, os filmes de amor que assistia durante as tardes, e, principalmente, as imagens dos lugares que nunca tinha visitado, mas que povoavam seus sonhos desde a juventude. Tio Zé ouvia todos aqueles relatos em silêncio, muito quieto, cauteloso como sempre tinha sido, diante daquelas novidades da cidade.

E quando chegava a noite, os vizinhos sempre apareciam, para assistir o capítulo da novela das sete...

(conto também publicado no Blog Sem Vergonha de Contar, de Helena Frenzel)